NÃO SE CONFORME AO MUNDO. MAS QUE MUNDO? | Ministério Graça sobre Graça

 

  NÃO SE CONFORME AO MUNDO. MAS QUE MUNDO?

NÃO SE CONFORME AO MUNDO. MAS QUE MUNDO?

Por Cristiano França

 

"Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E *não vos conformeis a este MUNDO*, mas transformai-vos pela *renovação da vossa mente*, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus." (Romanos 12:1-2)

 

A passagem bíblica que acabamos de ler é sempre evocada pelos líderes religiosos (de quase todos os segmentos do cristianismo, mas, principalmente, os evangélicos pentecostais e neopentecostais) para alertar os seus seguidores a respeito de práticas absolutamente normais da vida, tais como: ir à praia, frequentar cinemas e teatros, ouvir músicas não-evangélicas, consumir bebidas alcoólicas com moderação, frequentar shows e eventos não-evangélicos etc. (ao menos na época que fui pentecostal todas estas práticas, entre muitas outras, eram terrivelmente condenadas).

 

Talvez alguém que não tenha passado por esses tipos de proibições e de imposições religiosas pode se perguntar: “Por que atitudes tão normais eram proibidas e demonizadas?”. A resposta é bem simples: porque eram consideradas “do mundo”. Assim, sendo práticas “mundanas”, e uma vez que o cristão tem um chamado a não se conformar ao mundo, tais realizações eram totalmente abolidas do dia a dia dos adeptos das denominações evangélicas. Mas, será que o apóstolo Paulo estava se referindo a este conceito de *mundo* que a maioria dos chamados cristãos abominam ardentemente?

 

A palavra “mundo” em Romanos 12:2 vem do grego aion que significa, literalmente, período de tempo. Neste texto o apóstolo Paulo faz uma alusão àquele momento em eles estavam vivendo, ou seja, à ordem estabelecida *naquele tempo* pelo sistema social e religioso em que a Igreja estava inserida. Se observarmos bem, veremos que boa parte da carta Aos Romanos foi usada pelo apóstolo para tratar, principalmente, acerca do problema da relação da Igreja com a Lei ― Paulo buscava dissuadir aquela congregação a não se envolver com o Antigo Pacto. Vejamos:

 

“Concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.” (Romanos 3:28)

 

“Porque não foi pela lei que veio a Abraão, ou à sua descendência, a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo, mas pela justiça da fé. Pois, se os que são da lei são herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é anulada. Porque a lei opera a ira; mas onde não há lei também não há transgressão.” (Romanos 4:13-15)

 

“Pois o pecado não terá domínio sobre vós, porquanto não estais debaixo da lei, mas debaixo da Graça.” (Romanos 6:14)

 

“Assim, (...) também vós estais mortos para a lei pelo corpo de Cristo...” (Romanos 7:4)

 

Pensando em termos históricos, apesar de Jesus já ter morrido e ressuscitado na época em que Paulo escreveu suas cartas (ou seja, a Lei já estava obsoleta do ponto de vista espiritual), as práticas do Velho Pacto ainda estavam “em vigor” naquele tempo, uma vez que o templo de Jerusalém ainda estava de pé. Tendo isso em mente, observemos agora que Paulo diz aos Romanos que o caminho para eles não se envolverem com o senso comum daquela época (isto é, com aquele aion) era a busca pela *renovação da mente*. Perceba: quando Paulo falou de renovação ele estava sugerindo que os irmãos da congregação de Roma não se envolvessem com o que era antigo. Sendo assim, tendo em vista o contexto e o principal motivo da carta, fica fácil entender que ele falava das práticas da Lei:

 

“Dizendo ‘Nova Aliança’, envelheceu a primeira.” (Hebreus 8:13)

 

Naquele tempo a prática da Lei era muito comum, pois muitos judeus criam em Jesus Cristo, mas permaneciam fiéis às obras da Lei; e com a conivência dos demais apóstolos, é bom que se diga  (Atos 21:20). Deste modo, todas as igrejas eram transtornadas pelos judaizantes, que queriam impor as práticas da religião judaica aos membros das congregações. Assim sendo, “se conformar com o mundo” era, principalmente, o mesmo que aceitar que as obras da Lei fizessem parte da vida da Igreja.

 

Para encerrar: é evidente que sempre houve no mundo ― e há até hoje ― práticas negativas que nós, como representantes de Cristo, não devemos nos envolver, pois isto também é assumir a forma do mundo. Não é por acaso que Paulo dá diversos conselhos de boas obras no contexto do capítulo doze de Aos Romanos e ensina, falando abertamente, sobre as verdadeiras práticas más quando cita as obras da carne (Gálatas 5:19-21). No entanto, o conceito de *mundo* não é você deixar de praticar as coisas normais da vida, suprimindo a sua liberdade pessoal. Romanos capítulo doze trata, sim, de vivermos uma vida de boas obras, mas aborda, principalmente, a renovação da mente Igreja em relação ao Antigo Pacto, que, a propósito, é a principal pauta de nosso Ministério ao longo de todos esses anos de trabalho.

 

 




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